Bangalafumenga cancela participação no carnaval 2025 e reclama do modelo de organização: ‘Asfixiante e insustentável’


Bloco diz que regras impostas diminuem chances de obter patrocinadores. O g1 entrou em contato com a Riotur e ainda não obteve retorno até a publicação da reportagem. Apresentação do Bangalafumenga no carnaval do Rio em 2024
Alex Ferro/Riotur
Fundado em 1998 no Rio, o bloco Bangalafumenga anunciou nesta segunda-feira (24) o cancelamento de sua apresentação no carnaval da cidade em 2025. O coletivo publicou um longo manifesto no qual culpa o modelo da prefeiura para os blocos pelo cancelamento e convida outros grupos para uma reflexão.
No texto, o “Banga”, como é chamado por foliões e membros, teve público estimado pela organização em 2024 de mais de 100 mil pessoas. Em seu comunicado, o bloco afirma que o modelo atual revende o carnaval duas vezes, pela prefeitura e pela empresa que venceu a concorrência para organizar a festa.
“Revendem para outras marcas, ao mesmo tempo que juntas, cidade e empresa, limitam e sufocam as possibilidades de ativação de marcas que não fazem negócio com elas e que patrocinam o bloco, o artista. Não pode isso, não pode aquilo. Qual o resultado? Marcas afugentadas, com receio de multas por suas ativações nas ruas, tentam proteger sua reputação comprando o patrocínio oferecido então pelo caminho que lhes resta. Caminho que passa longe dos donos e protagonistas da festa, os blocos”, diz um trecho do texto.
No ano passado, uma pesquisa feita pela associação Coreto, que representa 40 blocos do Rio, mostrou que 71% dos responsáveis pelos blocos do coletivo consideram o processo de produção do carnaval de rua do Rio regular, ruim ou péssimo. Apenas 12% dos produtores culturais classificaram o processo implementado pela Riotur como “bom”. Nenhum deles disse que o esquema atual é “ótimo”.
Segundo o Coreto, os principais problemas na organização do carnaval de rua são: dificuldade de financiamento e liberação dos bombeiros.
No início de fevereiro, a prefeitura publicou uma portaria que afirmou que, segundo a Riotur, ampliava as possibilidades de patrocínios aos blocos carnavalescos. Segundo o orgão, a medida tornava mais clara as regras que permitem a captação de patrocínio direto para os blocos de rua regularizados. A publicação destaca que os projetos precisam ser previamente aprovados pela entidade municipal, podendo sofrer veto parcial ou total. Segundo a Riotur, a medida já ajudaria na captação de 2025.
O g1 entrou em contato com a Riotur sobre o cancelamento do desfile do Bangalafumenga e ainda não obteve retorno.
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Veja a íntegra do manifesto do Bangalafumenga
“O Bloco Bangalafumenga, com muita paz interna, convicção e coragem, anuncia para a comunidade do Banga e para seus queridos fãs e parceiros o seu novo modelo de cortejo para o Carnaval de 2026. Isso mesmo, 2026.
Em decisão tomada na noite desta segunda-feira dia 24 de Fevereiro, junto com os integrantes da nossa bateria, decidimos que não iremos simplesmente seguir o fluxo, nos manter em um piloto automático e seguir dentro de um modelo de Carnaval de Rua na nossa cidade que há anos se mostra asfixiante para os blocos, os verdadeiros realizadores e donos da festa. Usaremos o Carnaval de 2025 como um marco para desviar a rota e apontar para uma nova direção não só para o Bloco como para todo carnaval da nossa cidade. Faremos um carnaval silencioso, sem desfile público mas recheado de batucadas aqui dentro do coração.
A sensação é muito boa. Fazia tempo que não nos sentíamos tão convictos e ao mesmo tempo orgulhosos de um caminho escolhido.
CARNAVAL REVENDIDO DUAS VEZES SUFOCA BLOCOS
Segundo o celebrado relatório divulgado pela própria prefeitura, o Carnaval do Rio de Janeiro movimentou mais de 5 bilhões de reais em 2024, gerando em arrecadação de impostos 200 milhões. O Carnaval de Rua custa para a cidade algo entre 30 a 40 milhões em infraestrutura de banheiros, segurança, grades, horas extras de funcionários públicos. Valor perfeitamente possível ser pago com parte dos 200 milhões arrecadados.
Perceba que não estamos pedindo recurso público para o Carnaval. O problema é que o Carnaval de Rua não recebe de volta o recurso que ele mesmo gera. É um dinheiro que não retorna a quem o produz. Ao contrário. A Prefeitura do Rio de Janeiro, para otimizar seu orçamento, aproveita a alta visibilidade e o potencial de receita da festa que o Carnaval de Rua tem para a iniciativa privada e revende para marcas uma festa que, para começo de conversa, nem era dela.
E aí amigo, começa a segunda parte do problema. A empresa que adquire os direitos negociados pela cidade, na outra ponta, trabalha para amortizar o investimento feito e pago à prefeitura. Como? Revendendo de novo, uma festa que não era da prefeitura e nem dela.
Revendem para outras marcas, ao mesmo tempo que juntas, cidade e empresa, limitam e sufocam as possibilidades de ativação de marcas que não fazem negócio com elas e que patrocinam o bloco, o artista. Não pode isso, não pode aquilo. Qual o resultado? Marcas afugentadas, com receio de multas por suas ativações nas ruas, tentam proteger sua reputação comprando o patrocínio oferecido então pelo caminho que lhes resta. Caminho que passa longe dos donos e protagonistas da festa, os blocos.
Asfixiante. Injusto. Insustentável.
O FUTURO DO CARNAVAL E A VOCAÇÃO DO BANGA
O Banga nasceu da poesia e da arte em estado puro. Mas ele não nasceu ontem. Estamos nessa desde 1998. Pioneiro e corajoso desde pequeno, não temos vocação para ficar reféns de um modelo de carnaval arcaico, que ainda aceita e normaliza a escassez que ronda o artista e a cultura. Basta.
O artista, criador do conteúdo que é capaz de reunir milhares e milhares de pessoas para se divertir e por tabela consumir produtos dos patrocinadores da cidade, não entrou na conta e no modelo de negócio estabelecido. E nem queremos entrar. O futuro do Carnaval genuíno passa longe de sistemas e modelos que só pensam em metas, em ativações descontextualizadas que mais atrapalham do que ajudam o artista e o folião.
Essa carta não é um pedido de ajuda. Muito pelo contrário. Poderíamos realizar nosso cortejo em 2025, como sempre.
Mas decidimos que a arte e o Banga merecem e devem ter um papel mais relevante em todo esse processo.
O Banga está de volta nas ruas, na guerrilha. Nossa vocação não nos permite mais normalizar a apropriação da festa.
O rabo está abanando o cachorro.
Trabalharemos de forma pragmática, organizada para reverter esse contexto. Estão jogando dominó. Nós vamos jogar xadrez. O futuro do Carnaval de Rua do Rio precisa mudar agora. Convidamos todos os blocos do Rio, as ligas, para um diálogo assim que acabar a festa.
Bom Carnaval meu Rio”.
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