Reformas de 7 centros esportivos estão suspensas por falta de pagamentos da Prefeitura de SP; contratos somam R$ 100 milhões


Obras não foram concluídas por falta de repasse da Secretaria de Esportes (SEME), que tem orçamento de R$ 503,60 milhões para 2025. Prefeitura diz que parte das reformas estão dentro do prazo e que terão recursos liberados em breve Centro Esportivo do Ipiranga está há um ano e meio fechado por conta de obras não concluídas.
Rodrigo Rodrigues/g1
A Prefeitura de São Paulo tem ao menos sete centros esportivos, parques e balneários públicos municipais com reformas paralisadas desde o fim do ano passado. O motivo da paralisação é a falta de verbas da Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (SEME).
Os atrasos ocorrem em construções públicas que já foram licitadas e iniciadas, mas que tiveram as reformas paralisadas pelas construtoras por causa da interrupção dos repasses financeiros pela gestão municipal. A Prefeitura diz que obras estão dentro do prazo e que terão recursos liberados em breve (leia abaixo).
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Os sete centros com reformas paralisadas somam, juntos, mais de R$ 100 milhões em reformas que ainda não foram concluídas pela atual administração, apesar dos contratos terem sido assinados em 2023 e 2024.
Em pesquisa feita pelo g1 por meio dos documentos públicos publicados pela pasta dos Esportes, foi possível encontrar problemas de pagamentos em ao menos seis novos endereços, além do Ceret Tatuapé, que foi alvo de uma reportagem na segunda-feira (24). São eles:
Centro Esportivo Butantã – Solange Nunes Bibas – Valor do contrato: R$ 26 milhões / Suspenso desde 04 de fevereiro de 2025 – Construtora Almeida Sapata Engenharia e Construções Ltda;
Centro Esportivo Educacional Raul Tajara – Barra Funda – Valor do contrato: R$ 12 milhões, suspenso desde 30/09/2024 / Construtora Progredior;
Centro Esportivo Balneário José Maria Whitaker – Jd. Celeste (São Mateus) / Valor do contrato: R$ 12,7 milhões / Suspenso em 17/06/2024 / M.A.S. Construções e Empreendimentos LTDA;
Centro Esportivo Ipiranga – Valor do contrato: R$ 12 milhões / Suspenso desde 04 de fevereiro de 2025 / Construtora Lettieri Cordaro Ltda;
Centro Esportivo Casa Verde – Comandante Garcia Dávila – Valor do contrato: R$ 3 milhões / Suspenso desde 16 de dezembro de 2024;
Centro Esportivo Balneário Mário Moraes – Jardim Celeste / Valor do contrato: R$ 4,83 milhões Empresa Macor Engenharia / Suspenso desde novembro de 2024;
Centro Esportivo, Recreativo e Educativo do Trabalhador (CERET) – Tatuapé / Valor do contrato: R$ 36 milhões / Suspenso desde 02 de janeiro de 2025 / Construtoras Progredior Ltda. e Lettieri Cordaro Ltda.
Valor total dos contratos: R$ 106 milhões
A situação mais peculiar é do Centro Esportivo Ipiranga, na região central de São Paulo. A obra de R$ 12 milhões estava adiantada e fora prometida para dezembro de 2024.
Porém, naquele mesmo mês, a Construtora Lettieri Cordado Ltda – responsável pela obra – pediu mais 90 dias de prazo, que venceu no último dia 11 de março, segundo os documentos oficiais da Prefeitura de SP.
Secretário de Esportes visita Centro Esportivo do Ipiranga em obras e no mesmo dia secretaria interrompe a reforma.
Reprodução/Instagram
Em 4 de fevereiro, as redes sociais do centro postaram um vídeo sobre a visita do novo secretário de Esportes Rogério Lins (Podemos) ao local, onde ele fora supervisionar a reforma e registrou os trabalhos a todo vapor.
O local está fechado há quase um ano e meio, sem receber crianças e adolescentes da comunidade. O secretário prometeu a nova entrega para abril, segundo a publicação no Instagram.
Porém, no mesmo dia da postagem do vídeo, a secretaria gerida por Lins emitiu um documento decidindo suspender a mesma obra tocada pela Construtora Lettieri Cordaro LTDA no endereço, por falta de liberação dos recursos.
Documento emitido pela Secretaria de Esportes interrompe a reforma por falta de liberação de recursos no mesmo dia do vídeo da visita do secretário de Esportes.
Reprodução
Orçamento histórico da cidade
Os atrasos ocorrem em meio ao maior orçamento da história da Prefeitura de São Paulo.
Em dezembro do ano passado, a Câmara Municipal aprovou um orçamento anual de R$ 125,6 bilhões, o que representa cerca de 12% a mais do que o aprovado para o Orçamento de 2024.
Desse montante, a secretaria de Esportes ficou com R$ 503,60 milhões. A cifra deste ano é 2,68% maior que os R$ 490,44 milhões que a Lei Orçamentária Anual (LOA) destinou para a pasta em 2024.
O que diz a Secretaria de Esportes
Por meio de nota, a Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (SEME) afirmou que o vídeo do secretário o CEE Ipiranga foi apenas “um registro de uma visita e vistoria às intervenções no centro esportivo”.
A pasta também afirmou que as obras no CEE Casa Verde, na Zona Norte, e do CEE Jd. Celeste, em São Mateus, Zona Leste, ainda estão no prazo e tem recursos garantidos até o final da obra.
Já as outras quatro unidades de São Mateus, Barra Funda, Butantã e Ipiranga os valores para pagamento das construtoras serão liberados ao longo dos próximos meses para a continuidade das obras de revitalização.
A SEME também informou que “desde 2021, possui um plano de revitalizações e melhorias que já realizou entregas como a reforma do Centro Esportivo Vila Guarani e a construção das piscinas do CE Vila Curuçá, Lapa, Vila Santa Catarina, Jd. Sabará, resultando em um aumento de frequência nos equipamentos, com a marca de mais de 800 mil munícipes atendidos”.
“Somente em 2024, mais de R$ 123 milhões foram aplicados em ampliações, requalificações e reformas pela pasta. Os Centros Esportivos Casa Verde e Jd. Celeste têm obras ocorrendo normalmente, em fase final, com todos os custos garantidos. O Centro Esportivo São Mateus está em funcionamento com parte das intervenções já finalizadas, e melhorias no sistema elétrico, casa de bombas e piscina a serem concluídas”, afirmou.
“Os recursos para a continuidade das obras nas unidades São Mateus, Barra Funda, Butantã e Ipiranga serão liberados ao longo dos próximos meses”, concluiu.
Placa da prefeitura de SP mostra atraso na finalização de obra do Centro Esportivo do Ipiranga, no Centro de SP.
Rodrigo Rodrigues/g1
O g1 apurou que a equipe do secretário Rogério Lins que cuida dos contratos é composta pelo chefe de gabinete Franz Felipe da Luz e por Carlos Antonio Carvalho de Campos, coordenador de Administração e Finanças da pasta.
Franz Felipe já era chefe de gabinete do ex-secretário Felipe Becari (União Brasil) e acumula o cargo de tesoureiro adjunto do Podemos, o partido do secretário atual.
Por causa de ausência de fiscal do contrato entre a SEME e a concessionária Allegra Pacaembu para a reforma do estádio, Franz Felipe da Luz foi nomeado por Rogério Lins como novo fiscal do acordo de quase R$ 800 milhões, que enfrenta vários problemas para conseguir o alvará definitivo.
Segundo a pasta comandada por Rogério Lins, o chefe de gabinete “exerce a função em todos os aspectos e garante que as obrigações contratuais sejam cumpridas” pela Allegra.
A reportagem procurou o ex-secretário Felipe Becari, que retomou o posto de deputado federal, para saber o motivo da falta de repasses de parte dos contratos ainda na gestão dele, mas não recebeu retorno até a última atualização desta reportagem.
Ceret Tatuapé
Reforma de R$ 36 milhões do Parque Ceret está parada há mais de três meses por falta de verba da Prefeitura de SP
O caso desses centros esportivos é semelhante à situação do Parque Ceret, no Tatuapé, Zona Leste, que desde o início do ano teve os trabalhos de revitalizou interrompidos por causa do fim dos repasses da pasta de Esportes e Lazer da gestão Ricardo Nunes (MDB).
A situação do Ceret foi mostrada nesta segunda (24) pelo g1 e pelos telejornais da TV Globo e incentivou outros munícipes a denunciarem outras obras em atraso na mesma secretaria.
Documentos públicos da própria gestão municipal ao qual o g1 teve acesso, o Consórcio Ceret – formado pelas construtoras Progredior Ltda. e Lettieri Cordaro Ltda. – enviou um ofício para a Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (SEME) informando a paralisação, justamente pela falta de recursos financeiros por parte da pasta (veja abaixo).
Documento do Consórcio Ceret comunica gestão Ricardo Nunes (MDB) de suspensão da obra no parque.
Reprodução/g1
De acordo com dados da SEME, desde setembro do ano passado a secretaria só pagou às empresas contratadas a quantia de R$ 2,3 milhões para a execução da reforma.
O montante significa menos de 7% do total que a pasta precisa repassar à empresa responsável para que a obra seja concluída.
Por meio de nota, a Secretaria de Esportes diz que “o recurso para continuidade da obra do Ceret está na Junta Orçamentária e deve ser liberado no próximo mês”.
Segundo a secretaria, “a pendência ocorreu devido à transição entre os exercícios orçamentários de 2024 para 2025, considerando que se trata de uma obra de grande porte, com valor estimado em aproximadamente R$ 36 milhões”.
Área infantil degradada e com brinquedos interditados no Parque Ceret, no Tatuapé, desde 2023.
Montagem/g1/Rodrigo Rodrigues
“A Secretaria Municipal de Esportes e Lazer informa que o recurso para continuidade da obra do CERET está na Junta Orçamentária da Prefeitura de São Paulo e deve ser liberado no próximo mês. A pendência ocorreu devido à transição entre os exercícios orçamentários de 2024 para 2025, considerando que se trata de uma obra de grande porte, com valor estimado em aproximadamente R$ 36 milhões. Até o momento, foi liquidado o montante de R$ 2.333.811,90 na execução da obra”, afirmou.
O g1 e a TV Globo também procuraram as empresas do consórcio responsável pela obra, mas não receberam retorno até a última atualização desta reportagem.
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