EUA alertam Venezuela para ‘consequências’ caso ataque Guiana

O secretário de Estado americano, Marco Rubio, ao chegar no aeroporto internacional Cheddi, em Georgetown, Guiana, em 27 de março de 2025Nathan Howard

Nathan Howard

O chefe da diplomacia americana, Marco Rubio, disse nesta quinta-feira (27) à Venezuela que “um ataque” contra a Guiana no contexto da disputa territorial por uma região rica em petróleo “não terminaria bem”, e insinuou o uso da força militar.

Em viagem pelo Caribe, Rubio visitou Georgetown para dar apoio à Guiana frente às reivindicações da Venezuela sobre o Essequibo, uma área de 160 mil km², que representa dois terços do território guianês. A disputa fronteiriça centenária se intensificou quando a gigante americana ExxonMobil descobriu, há uma década, vastos depósitos de petróleo em suas águas.

“Se atacassem a Guiana ou a ExxonMobil (…) seria um dia muito ruim, uma semana muito ruim, para eles. Não terminaria bem”, afirmou o alto funcionário americano em uma coletiva de imprensa.

“Tenho plena confiança em dizer isso como secretário de Estado: haverá consequências pelo ‘aventurismo’, haverá consequências por ações agressivas”, declarou Rubio. O ministro das Relações Exteriores venezuelano, Yván Gil, classificou essas declarações como “bravatas”.

Com os projetos lançados pela ExxonMobil na Guiana, este pequeno país sul-americano de 800 mil habitantes e de língua inglesa está prestes a se tornar o maior produtor de petróleo per capita, à frente de Catar e Kuwait.

Embora tenha evitado sugerir uma resposta militar dos Estados Unidos, Rubio advertiu: “Temos uma Marinha grande e ela pode chegar praticamente a qualquer lugar”.

O chefe da diplomacia americana assinou um memorando de entendimento para impulsionar a cooperação em matéria de segurança entre Estados Unidos e Guiana. Os dois países concordaram anteriormente em realizar patrulhas marítimas conjuntas.

O presidente da Guiana, Irfaan Ali, comemorou o apoio de Rubio: “Estou muito satisfeito com a garantia dos Estados Unidos de salvaguardar nossa integridade territorial e soberania”.

O secretário de Estado americano esteve ontem na Jamaica, onde discutiu a crise no Haiti. Agora, está no Suriname.

“Rubio não nos surpreende. Conhecemos esse velho roteiro de ameaças e bravatas (…). A Venezuela não se rende diante de intimidações”, respondeu o chanceler Gil, em mensagem divulgada pelo Telegram. “Não precisamos nem buscamos conflitos, mas também não permitiremos que interesses estrangeiros tentem reescrever a realidade sobre o nosso Essequibo.”

As Forças Armadas da Venezuela alertaram que vão responder “com firmeza e decisão a qualquer provocação ou ação que atente contra a integridade territorial” do país. “A instituição armada não tolera, nem vai tolerar, ameaças”, publicou no Instagram o ministro da Defesa venezuelano, Vladimir López.

O enviado especial dos Estados Unidos para a América Latina, Mauricio Claver-Carone, adiantou que a administração de Donald Trump considera estabelecer com a Guiana uma relação semelhante à que mantém com nações do Golfo Pérsico, que abrigam tropas americanas como um muro de contenção contra o Irã.

Rubio busca reduzir a dependência dos países caribenhos do petróleo venezuelano.

Trump não reconhece a reeleição do presidente Nicolás Maduro na Venezuela, em meio a denúncias de fraude feitas pela oposição. Ele revogou a licença que autorizava as operações da petroleira Chevron no país, ao mesmo tempo em que ameaçou impor novas tarifas, a partir de 2 de abril, contra nações que comprem petróleo venezuelano.

A ExxonMobil prevê uma produção petrolífera na Guiana de 1,3 milhão de barris diários (mbd) até o final desta década, enquanto a oferta da Venezuela despencou de mais de 3,5 mbd para cerca de 900 mil mbd.

– Aumento da tensão –

No começo do mês, a Guiana denunciou uma incursão de um navio militar venezuelano em suas águas, o que Caracas negou. Maduro propôs uma reunião de presidentes com Ali, que rejeitou a oferta.

A Venezuela convocou as eleições de governadores e deputados do Parlamento, marcadas para 25 de maio, para escolher pela primeira vez autoridades venezuelanas para o Essequibo, sem informar como será esse processo. Georgetown alertou que aqueles que participarem serão presos e acusados de “traição”.

A Guiana sustenta que as fronteiras atuais foram fixadas em 1899 por um laudo arbitral em Paris.

A Venezuela, por sua vez, defende o Acordo de Genebra, assinado em 1966 com o Reino Unido antes da independência guianesa, que anulava esse laudo e projetava uma solução negociada.

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